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CARTAS E WHATSAPP

 



Houve uma época, aliás, há tempos atrás, em que as cartas eram a fórmula mais usual para as pessoas se manterem vinculadas, de trocarem ideias, declararem afetos, relembrarem passagens incomuns, alegres ou nem tanto. Enfim, esta forma de comunicação era valiosa alternativa aos quilômetros de distância e às impossibilidades da presença cotidiana.

Ah... quero registrar uma dessas passagens, vivenciada com aquele meu conhecido de longa data (vou chamá-lo simplesmente de Augusto).

Augusto não era dado a redigir cartas e, homem de poucas palavras, vivia um tanto solitário, quase não saía de casa. Como decorrência, raramente recebia visitas. Nem correspondência, exceto aquelas conhecidas e insistentes propagandas, desde livros a bebidas; de novidades eletrônicas, às quais ele resistia teimosamente, até as últimas emissões filatélicas.

Como voltávamos para casa nos mesmos horários, eu podia observá-lo sistematicamente abrindo sua caixa de correio, talvez imaginando que algo diferente houvesse sido enviado. Nada. Expressões de decepção eram visíveis no seu rosto.

Eu considerava possível que ele esperasse receber algum tipo de manifestação de apreço ou, quem sabe, alguma declaração mais atenciosa daquela mulher que vinha ocupando sua mente desde que a conhecera.

Fazia tempo que não me encontrava com ele, a vida tem lá suas idas e vindas. Ainda mais neste período de retiro domiciliar, pelas razões que todos sabemos. Some-se também que eu mudei de endereço há alguns anos e meu trajeto diário passou a ser outro. E nós nos afastamos.

Dias atrás, porém, um desvio nas vias de trânsito me levou à antiga quadra e, para minha surpresa, lá estava o Augusto entrando em sua casa. Acenei e ele retribuiu, pedindo que eu parasse o carro. Conversamos uns bons minutos, coisas antigas principalmente. Perguntei a respeito de sua relação com as novidades tecnológicas, pois um celular se sobressaindo no bolso da camisa denunciava uma nova postura.

- “Tive que ceder. Hoje a gente não fica sem os aplicativos de comunicação. Alguém me convenceu a utilizar o whatsapp. Acho que me acostumei”. Respondeu, com ânimo contido.

- “Muitas mensagens?”, continuei.

- “Não muitas. Apenas do grupo do trabalho e dos meus dois irmãos que continuam morando fora.”

- “Nada mais?”, insisti.

O silêncio foi uma resposta muito clara e uma sinalização para a despedida.

Fiquei pensando.

Talvez ele ainda esperasse receber de alguém, provavelmente daquela mulher que havia ocupado sua mente desde que a conhecera, apenas uma frase, algo como: “Fico tão feliz por ter você ao meu lado.”

Segui meu caminho, pensando no grande número de Augustos que, mundo afora, podem ainda estar aguardando algumas palavras de apreço, não importando a mídia utilizada pela remetente.

Se essas palavras chegassem, tenho certeza de que muita coisa seria diferente na vida desses Augustos.

E, igualmente, na vida das remetentes.


Crédito da foto: 'https://br.freepik.com/fotos/arvore'>Árvore


 


Comentários

  1. Reflexões inportantes para nós! Augustos são muitos ou vários? Não sei....mas existem com certeza.

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  2. Muito bom! Fui muito bom com as "cartas", mas nem tanto com as fitas "mídias Eletrônica"!!!
    Me considero um destes ditos: "AUGUSTOS"!!!

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    Respostas
    1. Ótima reflexão e visão da nossa introspectiva realidade!! Uma mensagem... Uma palavra... Muitos Augustos..

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  3. Se esses "Augustos" cedessem "Aos Gostos" da vida, ao invés da amargurada companhia da solidão, talvez as coisas seriam mesmo diferentes...
    Grande abraço Amado Mestre.

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  4. Muitos ensinamentos. Como fez bem essa leitura! Um abraço, estimado Rocco.

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  5. saudades, essa época me trás muitas lembranças boas...

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  6. Mestre.
    Lindo texto.
    Parabéns.
    Continue sempre nos brindando com esses textos maravilhosos.
    Abração.

    ResponderExcluir
  7. Obrigado por este texto de reflexão! Deus abençoe!! Fiquem com Deus!!

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  8. Oi Rocco !
    Gosto muito da maneira como vc escreve. A reflexão está muito bela
    : )

    Um grande abraço !

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  9. Chico! Ainda há muitos Augustos por aí...e, diante da inevitabilidade da forma de se relacionar com que a tecnologia nos impõe, é preciso manter a sensibilidade e a essência...Muito bom. Grande abraço

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