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SOBRE O QUE EU NÃO QUERO ESQUECER - Maria Cristina




Se um dia eu esquecer o cheiro do armário de cosméticos da vó Julia, me mostre um vaso de antúrios vermelhos ou me presenteie com um punhado de bolachinhas de maisena.

Se eu não mais me lembrar do amor do nosso pai, faça-me ouvir Ennio Morricone assistindo ao por do sol.

Se os sorrisos e a certeza da dedicação da mamãe fugirem da minha memória, por favor, encha uma vasilha de jabuticabas e se sente ao meu lado para comermos juntas.

Se eu não tiver lembranças da nossa infância de meninas, bata um suco de amoras (e coe) e me leve pra ver as pipas no céu!

Se eu esquecer o alívio que as palavras escritas me trazem, coloque em minhas mãos uma folha em branco e uma lapiseira vermelha, ligue a música e me deixe, só por um tempo, sozinha.

Se eu não me lembrar de todas as segundas chances que tive, me mostre a montanha mais alta e me conte que a paisagem da minha vida foi vista de lá.

E, se eu esquecer as incríveis e inesperadas surpresas da vida, me traga uma rosa branca e me faça sentir aquele perfume.

Se eu não me lembrar da maneira como vivi a vida, me conte a história “A moça tecelã” (da Marina Colassanti) e me faça rir com as do macaco Simão.

Se, na pior das hipóteses, eu não me lembrar do amor incondicional, peça, despretensiosamente, que eu olhe para meu pulso esquerdo (e me diga baixinho que esse é o lado do coração).

Se um dia eu não me lembrar, me conte dos meus amigos, dos amores, da alegria que eu tinha no trabalho e da intensidade que eu desejava a vida.

E, enfim, se um dia eu for, e não souber como voltar, me procure não nas curvas da minha memória, mas nas esquinas da minha alma. Em algum lugar, escondida, certamente você me encontrará!

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