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ANIVERSÁRIOS

Aniversários são celebrações. Ah... Celebrações trazem consigo sinais de alegria para renovar o entusiasmo e o colorido das intenções. Tão interessante quanto celebrar é identificar os motivos da comemoração, responsáveis pela euforia que transita no corpo e na alma durante todos os outros dias que completam o ano. Era esse o modo que ela havia passado a usar ao pensar em como o tempo havia construído alternativas para sua vida. Naquela manhã, preparou-se uma comemoração interior muito intensa. E se deixou caminhar nesta direção. Resistiu ao impulso de extravasar suas emoções. Mas... resistiu apenas até certo ponto. Era preciso permitir liberdade às palavras do coração. Reconheceu que tinha tantos aspectos para assumir seu contentamento... - Feliz por ter descoberto significados que estavam adormecidos; - Feliz por ter retomado atitudes e providências que, sem ele, estariam esquecidas até hoje; - Feliz por ter encontrado alguém que entendia amplamente as...

A PRINCESA E O JARDINEIRO - UM CONTO DE FADAS

Era uma vez uma linda princesa, que morava num pequeno e distante reino. Vivia envolvida pela atenção e pelo cuidado de todos quantos residiam no castelo, acessível por um caminho sinuoso e rodeado por um amplo jardim. Sempre que saía para cumprir os afazeres de princesa, era reconhecida por sua beleza, sua inteligência e seu jeito de lidar com as pessoas. Nos finais de tarde, podia ser vista passeando pelo jardim do castelo. Embora sorridente, algumas vezes parecia entediada e ansiosa por algo que não conseguia descobrir nos limites de seu reino. Em silêncio, fazia planos para vislumbrar outros lugares e circunstâncias que (quem sabe?) poderiam consumar suas expectativas. Passava horas e horas nesta reflexão. Um dia, vindo não se sabe bem de onde, um experiente jardineiro encontrou-a caminhando entre os canteiros do castelo. Conversaram longamente, trocaram ideias e falaram a respeito de tudo o que pudessem imaginar. Com o tempo, foram ampliando o conhecimento ...

REINVENÇÃO DO COTIDIANO

Houve um prolongado período em que meu cotidiano era muito diferente. Lembro-me que, das cinco às seis da manhã, permanecia deitado com olhos semicerrados esperando, inquieto e pensativo, os minutos transcorrerem em seu meticuloso ritmo. Depois, a roupa do dia, a água acariciando as mãos e o rosto, a toalha, o café com leite (pouco açúcar), o pãozinho com manteiga. Depois sem manteiga. Às pressas, uma fruta ou um pedaço dela. Voltava à água e às escovas, de dentes e de cabelos (poucos cabelos desde então), à desatenta conferência ante o espelho. E tudo se iniciava, porta afora, escola adentro. Assim caminhavam os dias, diligentes e com suas aparentes novidades, que mais seduziam do que permitiam atentar à sua frenética pulsação. No início da noite, com as aulas ministradas, desenvolvidas as dissertações e teses, completadas as tarefas administrativas, as horas quase sempre pareciam ocultar seu destino e os dias se despediam, sem retorno, nas constantes interrogações p...

13 DE AGOSTO DE 2017 - Maria Cristina

São Paulo, 13 de agosto de 2017. Dia dos pais aqui abaixo da linha do Equador. Data comercial para uns, sem sentido para outros e pra mim, só mais uma entre tantas para festejar. O que eu tenho pra dizer é simples, mas vem do coração. Passemos, então, às comemorações: - Feliz dia do "pode ir sossegada"; - Do "vai com calma"; - Do "Não adianta afobar"; - Do "Eu fico emocionado..." ; - Do "Está na área, Melzinha?" ; - E ainda do "Não faça como eu fiz." Feliz dia àquele que foi o meu primeiro grande amor, que por tantas vezes chamou minhas bonecas de "Tripa". Feliz dia dos pais para quem não me contava histórias de princesas, mas de gente de verdade. Que me fazia pensar sobre o que eu desejava da vida desde os quatro anos de idade. Feliz dia para quem ouvia (e me fazia ouvir) Tom Jobim no último volume e Xuxa sem som. Obrigada pelos poucos "nãos" q...

SONHO DE UMA TARDE DE OUTONO

As vozes animadas se intercalavam com o café bem quente, oportuno naquelas circunstâncias. Todos ao redor sabiam do que se falava naquele grupo. Tardes de outono . Numa das mesas da cantina, a ruidosa conversa entre amigos na manhã cinza de inverno se concentrava nesse tema. As opiniões convergiam à constatação de que as tardes de outono são incomparavelmente azuis e apropriadas para a vivência de momentos a serem relembrados. E exemplos ilustrativos não faltaram. Na mesa ao lado, eu apenas ouvia. E, no meu silêncio, acrescentei  um substantivo ao tema (sem ignorar a necessária preposição):  sonho de uma tarde de outono . Tendo sido músico em outras épocas, me pareceu conveniente adotar essa alternativa. A partir daí, abstraído da conversa, fui consultando meus arquivos de memória à procura de momentos vivenciados em tal cenário. Sem muito empenho, encontrei alguns. Entre eles, me detive naquele que considerei o mais significativo. Poderia escrever ao...

O ASPIRANTE A ESCRITOR

Assim como tantos anônimos que se dedicam, entre outros afazeres, a articular ou registrar histórias, aquele amante das palavras não tinha o hábito de compartilhar suas intenções. Considerava-se um aspirante a escritor. Acreditava na contínua lapidação daqueles que nasceram com esta intransferível aliança com a vida. O quanto de acerto existiria neste pressuposto nunca fora objeto de seu questionamento. Ávido leitor, aos poucos foi se encantando com as protagonistas que conhecidos nomes da literatura brasileira haviam imortalizado. Três delas eram suas preferidas: - Capitu, de Machado de Assis, obstinação amorosa de Bentinho, com sua misteriosa sensualidade; - Lucíola (ou Maria da Glória), de José de Alencar, com sua trajetória de adversidades e regeneração; - Gabriela, de Jorge Amado, com espírito livre e insubmisso às convenções de uma sociedade patriarcal. Ao lado desse seu encanto, algumas questões continuamente o incomodavam: como as relações entre realidade e...

LISBOA NÃO LHE PARECEU ACOLHEDORA

Ao regressar para casa, houve atraso na conexão em Barcelona. Aproveitou para refletir a respeito dos acontecimentos dos últimos dias. Na semana anterior havia comemorado seu aniversário de um jeito diferente do que pretendia. Imaginava receber como presente a reciprocidade do afeto por parte de quem era o foco de seu envolvimento. Mas não tinha sido assim. Havia percebido com clareza que tal expectativa não se consumaria e as consequências poderiam deixar marcas de frustração. Os projetos de vida eram antagônicos e um relacionamento promissor acabaria se transformando em convivência parcial, durante o curto intervalo de tempo que ainda tivessem à disposição. Mesmo por alguns dias, uma viagem talvez fosse alentadora. A caminho de Portugal, a passagem pelo Aeroporto de Milão havia sido cansativa e pousar em Lisboa foi um grande alívio. Alguns minutos no Metrô, troca de linhas em Alameda. Em seguida, a Estação Roma e finalmente um pouco de descanso no hotel. Ansiava por u...