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DO MESMO LADO DA RUA

 


Os lugares parecem não envelhecer como as pessoas. Continuam ali, como testemunhas discretas, oferecendo à memória a ilusão de que o tempo pode ser perenizado. Era o que ele pensava, quando se lembrava daquele local específico. Na mesma hora marcada, do mesmo lado da rua, tempos atrás, alguns encontros haviam acontecido.

Nos finais da tarde, ou nos inícios da noite, ela surgia entre as pessoas que, apressadas, voltavam para seus descansos. Surgia com o mesmo sorriso calmo, como se o mundo inteiro obedecesse à sua delicadeza, sem considerar o dia, a estação ou as circunstâncias vivenciadas ao longo das horas anteriores.

Quando a via atravessando a calçada, alguma ordem invisível se restabelecia. Este era o sentimento. O relógio documentava a chegada enquanto a cidade produzia os mesmos movimentos e os mesmos conhecidos ruídos. E os dois, por alguns minutos, se deixavam levar pela suavidade da mútua presença.

Eram outros tempos. Agora, permanecia apenas a mesma calçada, do mesmo lado da rua.

Uma vez ele voltou para lá. Não por outra razão senão pela sincera fidelidade ao que havia sido possível experimentar. Sabia que não a encontraria, afinal a vida nem sempre se ocupa em viabilizar expectativas.

Observou os que transitavam seus passos costumeiros, a vitrine da loja que permanecia sugerindo alternativas, o horizonte impedido pelos edifícios habituais, o hotel impassível com suas conhecidas janelas, a igreja imponente e suas muitas histórias.

Tudo se mostrou diferente e, ao mesmo tempo, incrivelmente igual.

Quando o relógio se aproximou da imaginária hora marcada, ele diminuiu o passo. Por um momento breve, quase imperceptível, imaginou vê-la outra vez, do modo como permanecia guardada na memória: atravessando a rua com a leveza de quem se aproxima de onde e com quem deseja estar, mesmo que por breves instantes.

Os encontros haviam deixado de acontecer. A vida, com sua impaciência sistemática, tratara de erguer distâncias que nenhuma caminhada seria capaz de vencer. A vida tem dessas coisas: algumas não presenças ocupam mais espaço do que qualquer oceano.

Ele seguiu seu caminho compreendendo algo que antes lhe havia escapado. Os encontros não sobrevivem apenas nos lugares em que aconteceram: sobrevivem também em quem os recorda, a qualquer tempo.

Embora já não fosse possível estar com ela naquele lado da rua, àquela hora marcada, percebeu que existia ainda um encontro acontecendo, silencioso e persistente, entre o homem que caminhava pela vida e a lembrança que se recusava a partir.


Comentários

  1. Que msg incrível especialmente para esse dia de finados... Esse texto da asas ao nosso imaginário real.

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  2. Este tempo... tão relativo que nos permite sentir como se o passado o presente e o futuro coexistissem num mesmo instante. As emoções sentidas, vividas nos permitem viver e reviver nos lados das nossas ruas.
    Lindo texto para refletir meu caro Amigo.
    Um fraterno abraço

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  3. As vezes os lugares permanecem os mesmos, mas nós que mudamos... E as lembranças que temos acabam eternizando aquilo que o tempo nao permite reviver.

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  4. Belíssimo texto… quanta sensibilidade 😍

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  5. Quanta sabedoria organizada nesse texto. Voltar no tempo e resgatar a saudade de boas lembranças.

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  6. Excelente texto querido Professor.... De aquecer o coração.. Um fraternal abraço!

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  7. Que texto bonito, Professor! Li e fiquei pensando nas pessoas e nos lugares que fazem parte da minha história. Tem lembranças que trazem a saudade e o sorriso juntos… Um grande abraço!

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  8. De fato!! Existem lugares e pessoas que permanecem em nosso imaginário! Nunca se perdem e serão eternos enquanto forem lembrados. Alguns (algumas) deixaram saudades e outros (outras) apenas lembranças!! Lindo texto!

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  9. Que maravilhoso este passeio no tempo até chegar “àquela hora marcada”. Uma viagem suave, intensa e requintada. Lindo texto, meu caro Chico.

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  10. Estimado Prof. Rocco, quantas saudades!!! Muitos momentos compartilhados com você e outros queridos amigos em um lugar que nos é comum. Que bom que estes momentos estão eternizados em nossas memórias e corações! Fraterno abraço

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