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DEZ ANOS

Você que está lendo este post com certeza viveu intensamente os últimos dez anos.   Mesmo que tenha seguido um projeto de vida cuidadosamente articulado e detalhado, você não deixou de experimentar surpresas, não evitou dores imprevistas, não se esquivou das novidades que impregnaram de sorrisos seus dias. Ou, até, conviveu com fases de monotonia e aparente ausência de alternativas.   Mesmo diante de um planejamento pessoal rigoroso, você deverá ter transitado por situações inesperadas e por momentos em que as questões propostas pela vida pareciam se afastar cada vez mais de suas possibilidades de criar respostas.   Pode ser que tenha vivenciado circunstâncias nas quais se sentiu só e sem disposição para superar os eventuais obstáculos que, surgidos intempestivamente, esmaeceram as cores de seus dias e dificultaram suas reações.   Pode ser, também, que nesses dez anos você tenha tido a experiência de conviver com a melhor das companhias, aquela que proporcion...

ESPELHOS

Nossos encontros com o espelho nunca se repetem. O dinamismo da vida nos reconstrói a cada instante, compondo nossas metamorfoses, mais rápida ou mais lentamente. Somos um pouco diferentes a cada dia. Por isso, várias vezes diante dos espelhos ainda nos surpreendemos com nossos rostos, únicos e inconfundíveis, em meio a tantos que fazem parte de nossas histórias. Nossos rostos trazem as marcas de experiências e expectativas, de sorrisos e lágrimas. De encontros e não encontros que sinalizaram nossos caminhos. De presenças e não presenças que abriram portas para construirmos nossas alternativas as quais, no cenário de nossos desejos, viabilizaram nossas escolhas. Nossos rostos, sinais de nossas vidas, apenas são visíveis para nós em espelhos. Talvez seja um paradoxo: expressamos sentimentos de tantas maneiras, mas apenas nos enxergamos por meio de reflexos. Creio ser este um dos motivos pelos quais precisamos de outros rostos, essenciais para experimentarmos as sensações de plen...

ADIAMENTOS INEVITÁVEIS

  Na vida, todos já vivemos, ou ainda estamos vivenciando, algumas passagens que, vindas sem prévio anúncio, trouxeram surpresas de diferentes origens e amplitudes. São situações inesperadas cujos rastros de mistério poderão perdurar por períodos indeterminados ou, talvez, por todo o tempo que ainda tivermos disponível nesta caminhada. Sei bem do que estou falando. Sei também que, dadas as circunstâncias envolvidas nestes imprevistos, muitos adiamentos se tornaram inevitáveis. Tenho pensado nisto e... Como teria sido se minha troca de ideias com o docente asiático houvesse se concretizado? Qual seria o resultado do modo inusitado de eu ministrar aquela disciplina da pós-graduação, com alunos especialmente interessados nos temas que receberiam tratamento específico? Teria sido muito esclarecedora a troca de ideias com os pesquisadores da minha área de atuação profissional a respeito das últimas definições normativas implantadas no país. Não pude participar. Tantos outros temas e abo...

DIÁLOGO NUMA CAFETERIA DE AEROPORTO

Naquele início de noite o movimento da rodovia de acesso a certo aeroporto estava tranquilo. Por isso, cheguei bem antes da partida do meu voo, com tempo suficiente para visitar minha cafeteria preferida. A única mesa disponível era ao lado de um casal. O diálogo parecia animado, ambos mostravam alegria por aquele momento.   Acabei me interessando pelo tema abordado. - Um dia de cada vez! Esse é meu novo lema, me empenhando para que o melhor aconteça. Me sinto mais serena desse modo. - É um lema sensato. E oportuno. As coisas andam passando muito rápido, eu me vejo espantado com a velocidade dos dias, dos acontecimentos. - Verdade! - Um dia de cada vez pode ser um exercício de paciência e até de resignação, quando for preciso. E renova a esperança! - Isto tem sido de extrema importância para mim nestes últimos tempos. - Não tenho dúvida. - Você alcançou uma postura que eu gostaria de ter conseguido há muito tempo. Esse exercício certamente nos faz seres humanos melhores....

CARTAS E WHATSAPP

  Houve uma época, aliás, há tempos atrás, em que as cartas eram a fórmula mais usual para as pessoas se manterem vinculadas, de trocarem ideias, declararem afetos, relembrarem passagens incomuns, alegres ou nem tanto. Enfim, esta forma de comunicação era valiosa alternativa aos quilômetros de distância e às impossibilidades da presença cotidiana. Ah... quero registrar uma dessas passagens, vivenciada com aquele meu conhecido de longa data (vou chamá-lo simplesmente de Augusto). Augusto não era dado a redigir cartas e, homem de poucas palavras, vivia um tanto solitário, quase não saía de casa. Como decorrência, raramente recebia visitas. Nem correspondência, exceto aquelas conhecidas e insistentes propagandas, desde livros a bebidas; de novidades eletrônicas, às quais ele resistia teimosamente, até as últimas emissões filatélicas. Como voltávamos para casa nos mesmos horários, eu podia observá-lo sistematicamente abrindo sua caixa de correio, talvez imaginando que algo diferente ho...

PRIMEIRAS PÁGINAS

                     Às vezes é bom a gente revisitar as nossas  primeiras páginas de vida. Nossas histórias estão repletas delas: as delícias das descobertas, os atrativos dos novos cenários, os encantos mais autênticos, sejam eles plenamente confessáveis. Ou não.   Acontecimentos marcantes, conquistas e intervalos de espera, impressões de presença ou ausência, gestos de ternura, impulsos da inocência ou do desagravo, são alguns dos temas de nossas primeiras páginas.   Haverá aquelas que se convertem em momentos inesquecíveis, pelo seu conteúdo, seu significado e suas projeções. Afinal, em muitos casos, a continuidade se consumará com as segundas, as terceiras páginas.   Haverá as melhores, as que estabelecem caminhos, e haverá as definitivas, as que trazem os coloridos que assumimos como referências. E, também, algumas que aludem a episódios derradeiros. Essas também são inevitáveis. No en...

O PASSEIO DE AVIÃO

Um céu sem nuvens e um sol outonal eram convite ao cumprimento da promessa: um passeio panorâmico de avião sobre a pequena cidade interiorana. Naquela tarde, o pai levou o filho e um sobrinho ao campo de aviação. Foram de charrete, sorrindo e contando os minutos para experimentar a emoção de ver tudo de cima, como se fossem pássaros em seu primeiro voo. Ao chegar, perceberam a longa fila de candidatos àquela jornada. Avaliando o tempo de cada passeio, concluíram que seriam os últimos do dia. Talvez não houvesse luminosidade suficiente para intensificar a experiência, mas isto não seria problema. Contrapondo-se ao azul do início da tarde, algumas nuvens se formaram e veio uma leve chuva. O ânimo, no entanto, permanecia intacto, mesmo com a claridade reduzida e o prenúncio do crepúsculo. Na decolagem, as primeiras luzes da cidade eram visíveis: cenário bem diferente do que previam enquanto, ainda em terra, exercitavam a imaginação e tentavam conter a ansiedade. O peque...