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ECOS DE UM ENCONTRO

  ECOS DE UM ENCONTRO Há encontros que se prolongam para muito além do instante em que aconteceram. São como sementes lançadas em solo fértil: mesmo invisíveis por algum tempo, seguem germinando até que a vida lhes conceda o verde das folhas, o colorido das flores e os inconfundíveis sabores dos frutos.   O primeiro contato, os gestos singelos, as palavras espontâneas que foram anunciadas se fazem fundamentos daquilo que vai se consagrar como definitivo. Os ecos de um encontro se expandem em novos significados, como se cada detalhe guardasse uma promessa de próximas vezes.   Esses ecos se transformam em companhia, real ou virtual, nos dias claros e, também, nos dias menos ensolarados. Convocados como elos da memória, emergem aos sentidos no feitio de lampejos de luz. São lembranças que aquecem, em especial no tempo em que até a distância insiste em manter acesa a chama da esperança.   Determinados encontros não se encerram em si mesmos: prolongam-se em no...

AMANHÃS

  AMANHÃS Alguém já teria dito que o tempo é como um rio: não se detém e não se reproduz. Mais ainda, nunca se curva diante de nossas vontades. Avança, imperativo e enigmático, levando consigo nossas impressões e deixando atrás de si a multiplicidade de vestígios com que nos revestimos em nossas trajetórias. Cada experiência é uma chama com período limitado de realidade. O amanhã é sempre uma promessa frágil. A vida mostra que cada passo dado requer uma renúncia, cada decisão é um corte na amplitude das possibilidades.   Prosseguir ou retornar são escolhas que não coexistem. Assim, o amanhã não é um espaço infinito de oportunidades, mas um horizonte que se estreita à medida que o caminho é trilhado.   Cada instante vivido é único e fugaz. Por mais que se busque aprisioná-lo em imagens e versos, ele escorre silenciosamente em direção a um passado cada vez mais distante.   As imagens que guardamos são como mistérios suspensos: não revelam a totalidade das circunstâ...

ENTREVISTA

Olá! Recentemente participei de uma agradável troca de ideias com o amigo Glauco Keller, reconhecido e atuante professor em São Carlos. Foi uma entrevista concedida ao Programa Subtexto, na Rádio UFSCar 95,3FM, muito bem conduzido pelo Glauco, a quem agradeço pelo honroso convite a mim formulado e pela oportunidade de contar um pouco de minha esperiência "extra-acadêmica". Para assistir a este momento especial, acesse: https://www.youtube.com/watch?v=626mwCviMVM Se gostar ... compartilhe com seus contatos! Tenha bons momentos assistindo ao vídeo! Com um fraterno abraço!

O QUE CABE NUM ABRAÇO

  O QUE CABE NUM ABRAÇO? Em tempos festivos, como os vivenciados nos finais de ano, buscamos gestos que expressem mais do que palavras. O abraço é um desse gestos. Embora simples, carrega uma complexidade emocional desafiando explicações racionais. Um abraço pode ser saudação, despedida, sensação de pertencimento, consolo, celebração — ou tudo isso ao mesmo tempo. Cabe num abraço o reencontro depois da longa espera. Cabe o perdão ainda não verbalizado, mas que já encontrou em nós permanente abrigo. Cabe o silêncio emocionado de dois corações que não necessitam de palavras para se entender. Cabe a alegria espontânea, o choro contido, a saudade que passa pela resignação e, sublimada, se acomoda. Há abraços que curam, dizendo “estou aqui” quando o mundo se mostra distante aos olhares exaustos. Há abraços que sustentam as esperanças quando a alma parece se esconder em seus medos e apreensões. Há abraços que não pedem explicações: apenas acolhem sem julgamento e oferecem o apreço ...

DIAS NUBLADOS TAMBÉM REVELAM SEUS ENCANTOS

  Dias nublados também revelam seus encantos A saudação ao novo dia costuma vir com o sol. Mas há manhãs em que o céu se mostra encoberto e a luz se espalha tímida, quase resignada. O tempo parece suspenso entre o silêncio e a espera. Muitos associam esses momentos à melancolia. No entanto, os dias nublados possuem uma beleza discreta, que se comunica em sussurros. São convites ao recolhimento: a pressa desacelera, a inquietação se dissolve, e o olhar se volta para dentro. Como plantas que florescem à sombra, a introspecção ganha espaço. O céu encoberto ensina que nem tudo precisa ser claro para ser compreendido. Há poesia nas nuances da neblina. E há muitos aspectos que o sol esconde: o verde das árvores se aprofunda, o cheiro da terra se intensifica. O orvalho cumpre suas promessas de renovação, pausa e abrigo. Na vida, também se vivenciam dias nublados — momentos em que o ânimo se esconde atrás de nuvens internas e os caminhos parecem incertos. Mas, permanecem no ar os v...

SEMBLANTES

  SEMBLANTES  Os semblantes trazem consigo reflexos de histórias que, muitas vezes, não podem ser plenamente transcritas em palavras. Semblantes têm a prerrogativa de transmitir, em seus traços, sínteses de experiências vivenciadas, de verdades silenciadas e, também, de tantos sentimentos que se revelam, quase sempre de um modo indisfarçável. Um jeito de olhar pode transparecer segredos profundos, uma expressão espontânea pode anunciar ansiedade, um sorriso pode esconder a inquietude de um coração vulnerável. Semblantes são como atos involuntários de coragem que evidenciam com sutileza e intensidade o que, em vão, se imagina ser possível blindar da própria essência. Ao mesmo tempo, fazem cintilar indícios cotidianos de expectativas, intenções, fantasias. E até das mais singelas ou das mais impactantes realizações. Semblantes são confissões que libertam ou denunciam. Confissões que somente permitem ser decifradas por olhares atentos e compreensivos, porém irão se diss...

OLHARES

  OLHARES Olhares são flechas precisas que atravessam distâncias, elucidam segredos e estabelecem conexões. Podem revelar afeto, inquietude, admiração. É no cruzar de olhares que muitas histórias começam e emoções florescem: olhar é mais do que observar; é perceber, compreender e sentir. Olhares requerem reciprocidade para se tornarem poemas de vida.   Olhares que acolhem são espelhos do infinito que habita A singeleza de momentos que palavras não descrevem; Olhares que abrigam a doçura de confissões já declaradas São gestos que transformam dias comuns em celebrações. Olhares generosos enxergam além da superfície, E elaboram pontes substituindo abismos. Olhares generosos são rios que fluem sem cessar, Envolvem o mundo, prontos a entender o que é invisível, E a vivenciar o que se exprime na simplicidade de um gesto.   Olhares generosos não julgam, mas compreendem com a alma, São como a ternura silenciosa que se concede, sem pedir nada em troca.

UM CAFÉ COM BOLACHINHAS DE NATA E A COMPANHIA ESSENCIAL

  UM CAFÉ COM BOLACHINHAS DE NATA E A COMPANHIA ESSENCIAL A vida tem lá seus caprichos. Alguns destes caprichos são vivenciados quando a simplicidade se torna a real essência dos momentos felizes. Existiria algo mais singelo do que uma xícara de café bem quente acompanhada de deliciosas bolachinhas de nata, saboreadas na mesa daquela padaria tradicional, cuidadosamente escolhida, num conhecido recanto da cidade? Entretanto, a simplicidade somente se completa com a presença da companhia essencial, aquela que configura a singeleza dos momentos transformados em memoráveis celebrações. O ritual de saborear uma xícara de café precisa se estender com o experimentar de seu aroma envolvente que desperta aos sentidos os elementos recordados de aconchego e bem-estar. Cada gole sorvido é uma pausa no tempo, um momento para refletir e relaxar. As bolachinhas de nata, com sua textura delicada, são ao mesmo tempo protagonistas e coadjuvantes dessas experiências únicas e recorrentes. ...

ALGUNS VERSOS SINGELOS

  Imagem:@hertezpuggina ALGUNS VERSOS SINGELOS   Por alguns versos singelos, Sem rimas (elas não são essenciais para mim) Lá se foram algumas horas de minha vida.   Espero que alguém os leia, em algum lugar, Em algum momento, em alguma circunstância, Em algum fim de tarde despretensioso.   Ou... que o tempo os conduza Num vento bem suave, mas preciso, Para que encontrem seu pouso sereno Num coração acolhedor E ali habitem para sempre.

BÉSAME

  BÉSAME (ouça https://www.youtube.com/watch?v=TUVM4WdXMLs enquanto faz a leitura)   Durante muitos anos, Paulo foi profissional da música, cantando em restaurantes, bailes e outras festas. Gostava destes trabalhos. Porém, por causa deles, raras vezes teve a oportunidade de dançar, nos moldes românticos ainda viáveis naquele final da década de 1980. Para ele, dançar era um ato de magia, bem mais que o simples compartilhar de mãos, movimentos e expectativas. Esta era sua percepção e acreditava nela apenas se houvesse alguma cumplicidade entre os envolvidos. Entretanto, sempre há os dias em que algo inesperado acontece. Havia um clube, em sua cidade, que programava as chamadas Noites Temáticas. Num sábado sem trabalho, foi à boate. Decoração como convém, luzes contidas, músicas falando dos diversos tipos de amor: boleros e outros ritmos do gênero. Os passeios de sempre pela penumbra do salão e, de repente, Paulo encontrou uma linda mulher, de pele e cabelos morenos, ol...

AQUELA PRAÇA

O encontro naquela praça foi inesquecível. O horário não se mostrou importante. Não houve fogos de artifício, nenhuma canção podia ser ouvida no instante em que as vozes e os olhares se cruzaram – curiosos e envolvidos – naquele lugar que se tornou referência e, ao mesmo tempo, um misto de saudade e resignação. Os canteiros floridos ao redor e as calçadas ligeiramente sinuosas confirmavam que o momento era verdadeiro, um momento que seria a demonstração de que a realidade da vida podia apresentar tonalidades de paz, euforia e encanto. Era o início de um tempo que viria a ser surpreendente. Em doses pacíficas e gradativas. Ainda um pouco e seria possível rever as amoreiras florirem, os granitos espelharem o brilho do sol. Seria possível desfrutar as imagens elevadas do mar, das ondas que arrebentariam em praias serenas e da espuma que carregaria consigo eventos imemoriais. Seria possível ouvir as antigas e as novas canções, agora revestidas de arranjos intensos, teclados e sop...

DIÁLOGOS, CAFÉ E AFETO

    - Olá! - Olá! - Estou preocupado com o seu dente. Pelo que me contou percebi que estava incomodando bastante, tirando seu bom humor e fazendo você se sentir aborrecida e desmotivada. Na realidade, com esta síntese ele desejava que suas palavras fossem entendidas de um modo bem mais amplo, abrangendo tantos outros aspectos a respeito dos quais não estava acostumado a se referir. Afinal, muitas vezes, assim ele pensava, é possível que as pessoas em suas relações assumam, implicitamente, impressões de que determinados limites não devem ser excedidos. Ela se questionava a respeito das razões que o levavam a insistir com perguntas muito parecidas. Os cuidados dele seriam mesmo tão profundos como algumas vezes havia manifestado, não somente com palavras, mas com gestos, atitudes e providências? Ele não estaria percebendo que suas dores ultrapassavam as fronteiras físicas e estavam alcançando de modo intenso suas emoções e suas expectativas? No entanto, ele seguia com...

ASSIM É A VIDA

  Imagens fixadas em fotografias são sempre subjetivas. Exercitam a capacidade de fazer parar o tempo, registrando instantes únicos, trazendo em sua essência sínteses de histórias – já vividas ou por viver. Fotografias, muitas vezes, são registros de uma não presença, de um vazio que se instalou depois de partidas de todos os tipos ou de chegadas inesperadas a lugares incomuns. Fotografias são as veladas afirmações de que a vida sempre nos conduz ao confronto de nossos limites. Superá-los ou não é algo circunstancial, o essencial é não abdicar dos confrontos, sem os quais não veremos expandidas as nossas fronteiras pessoais. Alguém já teria dito que, para cada coisa que adicionamos ao nosso trajeto, é preciso renunciarmos a algo, que ficará disperso por onde construímos nossos caminhos. Será nestas horas que, resignados, teremos mais clara a intensidade de nossa determinação. Prosseguir ou retornar são alternativas excludentes: é possível apenas escolher uma delas. E... ren...

UMA VIAGEM NO TEMPO

Naquela manhã, a viagem pareceu durar bem mais que as horas calculadas. Na verdade, a intensa expectativa era rever, pouco mais de um ano depois, a pessoa especial, que tanto o impressionara. Provavelmente de modo definitivo. Instalado no hotel, aguardou com ansiedade o horário estabelecido para o encontro, até receber a mensagem confirmando já estarem resolvidas as questões que ela estava tratando. Era tempo de se dirigir à praça central, conforme haviam marcado. Chovia fino naquela tarde, tornando o momento ainda mais singular. Vinda de uma das esquinas da praça, a linda mulher se fez presente e, como um presente, conduziu as palavras e os abraços de boas-vindas e, com seu sorriso inigualável, propôs - e foi imediatamente atendida - que almoçassem no restaurante mais próximo. Assim fizeram e começaram a conversar como se houvessem estado juntos desde sempre. Nem mesmo a intensidade sonora do local foi impeditiva para que o momento tão esperado se mostrasse exatamente como p...

VESTÍGIOS

Alguém teria dito, um dia desses, que tudo o que as mãos levam ao papel são traços de páginas já vividas que, insistentes, permanecem no imaginário de nossos sentidos e, irreverentes, se manifestam quando bem desejarem, sem prévio anúncio e sem censura. Somos a soma dos vestígios que absorvemos ao longo de nossos passos, em nossos caminhos. Em geral são muitos, todavia alguns exemplos são mais tangíveis. As imagens, mesmo que imprecisas, das primeiras companhias e das primeiras esperanças, acalentadas num tempo que ainda nem era possível compreender o real significado desses termos. As pessoas, aparentemente insubstituíveis, que, pelos mais diversos motivos, saíram de nosso convívio e de quem quase nada mais soubemos. Talvez nem nos lembremos dos instantes nos quais trocamos as palavras que viriam a ser as derradeiras de nossas relações. As impressões daqueles que atravessaram conosco os diferenciados instantes de serenidade ou amargura; que navegaram ao nosso lado as ondas de todas as...

UMA PEQUENA HISTÓRIA A RESPEITO DE PALAVRAS E SILÊNCIOS

  Franco e Tom, amigos de longa data, mantinham constantes diálogos, caracterizados pelas suas personalidades opostas e posições complementares a respeito de diversos temas. Tom era extrovertido e direto quando se manifestava, suas palavras dificilmente deixavam dúvidas. Franco era mais ouvinte, falava com ponderação e, algumas vezes – apenas algumas – conduzia o amigo a refletir sobre determinadas declarações. Mas não se lembrava de qualquer ocasião em que seus argumentos levaram o amigo a mudar de ideia. Tom vivia com Simone há vários anos, partilhavam de opiniões análogas e administravam com sucesso suas atividades profissionais. Para ela, sobravam elogios a cada conversa com Franco. - “Ela é muito criativa!”, ao se referir às soluções práticas adotadas diante das situações cotidianas. - “Ela é muito determinada!”, expressava Tom ao comentar a disposição de Simone para superar as circunstâncias em que seus objetivos pareciam se afastar da viabilidade do momento. - “Ela é muito...

DEZ ANOS

Você que está lendo este post com certeza viveu intensamente os últimos dez anos.   Mesmo que tenha seguido um projeto de vida cuidadosamente articulado e detalhado, você não deixou de experimentar surpresas, não evitou dores imprevistas, não se esquivou das novidades que impregnaram de sorrisos seus dias. Ou, até, conviveu com fases de monotonia e aparente ausência de alternativas.   Mesmo diante de um planejamento pessoal rigoroso, você deverá ter transitado por situações inesperadas e por momentos em que as questões propostas pela vida pareciam se afastar cada vez mais de suas possibilidades de criar respostas.   Pode ser que tenha vivenciado circunstâncias nas quais se sentiu só e sem disposição para superar os eventuais obstáculos que, surgidos intempestivamente, esmaeceram as cores de seus dias e dificultaram suas reações.   Pode ser, também, que nesses dez anos você tenha tido a experiência de conviver com a melhor das companhias, aquela que proporcion...