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TRINTA ANOS - Chico

Reginaldo Bessa assim escreveu a respeito de tema tão recorrente (e estava certo): “O tempo não para no porto, não apita na curva, não espera ninguém.” TRINTA ANOS Não tenho mais trinta anos, - há quem os tenha - As coisas ao redor ainda Persistem vibrando mistérios, Mas as luzes incidentais já independem Das inúteis sensações de absoluto E as inquietudes passaram a obedecer Critérios de expectativa controlada. Não tenho mais trinta anos Nem projetos inconfessáveis, Ou, ainda, aspirações cifradas: Os tênues vestígios de amplitude Sugerem a continuidade da devoção; Na harmonia dos campos de cultivo Pétalas, cores, nuances e cursos Disseminam murmúrios de paz. Não tenho mais trinta anos, Apenas posso admirar quem os tenha, Observá-los em suas reticências, Permitindo que me ensinem emoções Na espontaneidade do que se faz singelo, Cuidando dos vocábulos e dos sons, Mas sentindo, no início da tarde, A voz da vid...

VENDE-SE UM PIANO - Chico

VENDE-SE UM PIANO Naquela manhã, o espaço reservado para o café em um dos hotéis de Brasília estava quase lotado. Ocupei a única mesa vazia, ao lado daquela em que duas senhoras conversavam. Turistas bem-humoradas, evidenciavam sua origem pelo inconfundível sotaque. Aos poucos a sala foi se esvaziando, permitindo que eu identificasse o assunto que elas abordavam, referindo-se a uma amiga em comum – chamada carinhosamente de Efe. Efe, segundo as duas senhoras, estava tentando vender – sem sucesso - um piano que há muito pertencia à família. Entretanto, o tema central da conversa não era o instrumento propriamente dito e, sim, uma visita que a proprietária havia recebido: um casal parecia interessado em adquiri-lo. O homem estaria se mudando para a cidade e queria o piano para seus estudos. A mulher o acompanhava e nada mais se sabia dela. - Efe mencionou que o homem tocou algumas músicas diferentes. A mulher que o acompanhava apenas ouvia - Disse uma delas. - Vai ver...

LINO - Maria Cristina

Gosto de histórias, histórias de bicho e de gente, escritas para adultos ou para as crianças. Apaixonei-me por essa à primeira vista (ou à primeira leitura): "Lino", de André Neves (uma história pra gente pequena que encanta também gente grande), e imaginei como ela seria se tivesse sido redigida para os adultos.   A história do Lino, para as atuais crianças crescidas, na minha concepção, seria mais ou menos assim: LÚCIO Naquela manhã Lúcio acordou triste. Lara, ele não sabia bem o por que,  não mais fazia parte de sua vida. Lara era uma mulher rara, linda, risonha e alegre. Lara gostava de gente. Lara ouvia boas músicas.   Lara trabalhava contando belas histórias num blog patrocinado. Lúcio e Lara sempre estiveram juntos, desde que entraram na faculdade de arquitetura. Mas agora, Lara tinha partido. Lúcio,  telefonou, mandou mensagens (via whatsapp) e deixou recados no facebook, conversou com vários amigos da Lara até que um deles, certa vez,...

SUPERANDO MUROS E MEDOS - Chico

Nossos medos são muros obstinados. Precisam ser enfrentados, assim como tudo aquilo que impede nossa liberdade. Superá-los não é apenas uma questão de honra. É uma questão de vida.   SUPERANDO MUROS E MEDOS Não me recordo das angústias, Não me recordo das intenções: Minha memória é seletiva. Permaneço em meu regaço, Às vezes acariciando rostos, Às vezes enxugando lágrimas, Às vezes exorcizando mágoas - quase sempre não as minhas - E substituindo esperas por Assumidas visões de amanhãs. Minha vida tem ares de magia: Vai desenvolvendo seus enredos, Construindo trajetos alternativos Como testemunhas de esboços Transformados em realidade E vivenciados na permanente Busca pela superação de muros e medos.

DOCE SETEMBRO - Chico

DOCE SETEMBRO Muitas frutas são doces, em setembro. Seu néctar invade os sentidos e se deixa absorver por lábios e bocas, depois da busca e do encontro. Muitos dias podem ser doces em setembro. Haverá motivos e estes se estenderão por todos os meses, em todos os hemisférios, em todas as latitudes. Muitas pessoas podem ser doces em setembro. Na verdade, em qualquer época, em quaisquer circunstâncias: aquelas sempre sonhadas, que chegam e se instalam definitivamente em nós. Muitos relacionamentos podem ser doces, quaisquer que forem os períodos de sua permanência ou da trajetória que terá sido possível construir.  Muitos beijos podem ser doces, profundamente doces, e os hálitos se perfumarão com a ternura advinda da proximidade interpenetrada, mesmo que tudo seja transitório ou que persista por muito tempo. Todos os momentos podem ser doces, mesmo enquanto o próximo setembro não vier e que a doçura se conservar apenas na lembrança daqueles que viveram este inesquec...

CENÁRIOS INTERIORANOS - Chico

Não sei se existe algum cenário que me encante mais que a imagem de algumas pequenas cidades interioranas, do Brasil ou de qualquer outra parte do mundo. Suas ruas poucas, arrumadas como recomenda a cultura local, serpenteiam pelos atalhos rumo às montanhas próximas ou se misturam às planícies ao redor. Pequenas cidades que abrigam pessoas simples e prudentes, altivas e nostálgicas, pessoas que aparentam guardar em si mesmas todos os segredos do mundo, decifrados por uma experiência - em maior ou menor intensidade - de sofrimento, escassez e conquista. Pessoas que sublimaram as partidas dos amigos e das amantes, e precisam acalentar a si mesmos na solidão de semanas, meses e anos, nas pequenas cidades com suas casas sequenciais, cúmplices do tempo, casas que se fazem abrigo e lenda. Numa atmosfera de permanência, muitos talvez se envaideçam com sua sabedoria e sua determinação, outros parecem querer perpetuar a felicidade não adjetivável que imaginam acompanhá-los desde a in...

CONFRONTO - Chico

As palavras e suas revelações sempre me atraíram. Eu as buscava com obstinada persistência, propondo questões e inventando respostas na tentativa de compreendê-las. Os resultados nem sempre convenciam. Mas, a vida ensina e, quando nos consentimos ao aprendizado, as transformações ficam evidentes. Assim, passei a entender que os significados mais singelos são aqueles que as palavras nos revelam espontaneamente, no seu tempo e no seu ritmo.  Deste modo, estou reaprendendo a captar os seus encantos. CONFRONTO Os significados das palavras cintilam ao meu redor; Seus agitados vórtices me alimentam de euforia. Mais verdades guardarão em seus castelos simbólicos Ou mais enganos tentarão transferir aos desatenciosos ? Mais perguntas ensejarão em suas nuances clandestinas Ou mais respostas permitirão aos garimpeiros das definições ? Mais paixões incitarão em suas artimanhas misteriosas Ou mais lágrimas farão derramar dos olhos ingênuos? Convencerão...