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POR QUE SERÁ QUE É TÃO DIFÍCIL DIZER TCHAU? - Maria Cristina



Se você começou a ler esta postagem esperando uma resposta... Esqueça. A intenção não é responder a pergunta acima. Essa é só uma tentativa (precocemente frustrada) de racionalizar o que não pode ser racionalizado. (Somos mesmo egoístas. Não queremos dizer tchau a ninguém daqueles que queremos ao nosso lado. A nossa alegria por tê-los por perto é maior que o desejo de deixá-los ir ao encontro de algo melhor ou simplesmente mais adequado).

Já nasci dizendo adeus (e deve ser por isso que cheguei ao mundo usando entusiasmadamente meus pulmões e testando os ouvidos e a paciência de papai e mamãe). Disse adeus ao calor de uma casinha quente que me abrigou por nove meses ou nove ciclos lunares como papai insiste em lembrar (nasci na décima lua!). Esse talvez tenha sido o primeiro, mas jamais saberei quando virá o próximo ou o último adeus.

Não poderei me esquecer do adeus ao noninho que, aos 93 anos, partiu (dormindo) numa noite fria de um dia santo do mês de junho. Naquela época eu acho que não entendia nada da vida, mas lembro-me que quase me afoguei nas lágrimas que chorei. Depois de um ano, foi noninha que nos deixou. Velhinha, foi fazer par a um companheiro de uma vida toda.

Talvez a maior de todas as dores de infância tenha sido dizer tchau a uma coleguinha de classe. Tenho certeza que nem eu nem ninguém daquele “Nobre” Colégio São Carlos esquecerá a partida da Claudinha, uma menina doce e meiga que foi morar com Papai-do-Céu prematuramente.

Na adolescência a gente diz tantos “tchaus” e eu, exagerada como era (e sou), potencializava o sofrimento de cada “até mais”. Senti tanto ao saber que o professor, por quem cultivava certa paixão, iria se casar. Mas... está bem, confesso: dizer “tchau” a cada fim de conversa ao telefone com o menininho bonitinho, era igualmente angustiante. Esperar uma eternidade até a próxima ligação, doía. E teve um grosso, melado (e ensaiado) “tchau” no aeroporto. Bom quando estamos no papel de quem vai (péssimo quando somos quem fica).

Depois veio a faculdade e tive de dizer tchau aos amigos de infância, à irmã (quantos tchaus eu já disse a ela!), à cidade, ao colo e aos cuidados dos meus pais. Eles não viram (ainda bem) o meu desespero quando, depois de me deixarem, de mala e cuia na porta da república, partiram de volta. Esse “tchau” foi tão difícil quanto necessário.

Já tinha mais de vinte anos quando, no trânsito paulistano, recebi a notícia da partida da vó Julia. É claro que errei o caminho, perdi as entradas e vaguei por horas como um navio perdido em alto mar (por menos eu continuo errando os caminhos em São Paulo – santo Waze). Perda irreparável! Depois da morte da vovó, perdi uns pedaços de mim também!
Chorei ao deixar meu pequeno, pela primeira vez (segunda, terceira e quarta também) na escola, mesmo sabendo que em poucas horas ele estaria ali, de novo, bem perto de mim (coisas de quem tem um coração batendo fora do corpo – eu tenho!).

Incrível como é profissionalmente difícil dizer tchau a cada turma que se forma (e, de novo, está chegando esse dia!), aos mestres que passaram (e tanto deixaram), aos colegas que conviveram, às “chefinhas” que, racionalmente, precisam ir...

Lamentei por livros e filmes que acabaram mesmo sabendo que poderia revisitá-los quantas vezes quisesse.  Por taças que quebraram, por livros que não foram devolvidos, por cartas que não foram respondidas e por histórias que não foram lidas (e até pelas que não foram escritas).

Sofro pelos “até breve” de amigos que custo a rever, pelos feriados com a família que passam ligeiro demais (chega depressa a hora de dizer tchau), pelos encontros que parecem durar menos tempo que o minimamente aceitável.

São muitos os “adeus” da vida, uns mais significativos que outros, naturalmente. Mas alguns “tchaus” eu preferia que fossem daqueles de mentirinha, que durassem só uma noite. Que amanhã, quando eu acordasse tudo não tivesse passado de um sonho, um sonho que pareceu tão real, mas não foi.



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